Sociedade civil organizada é premissa para liberdade

Uma análise social que resulte em conclusões condizentes com a realidade requer abstração e empiria, a fim de que o observador se livre de suas pré-concepções, enquanto julga seus próprios contextos. Pois bem, julgo que a minha estada nos Estados Unidos em 2016 e 2017 foi um momento oportuno para constatar que a sociedade civil organizada é requisito para a liberdade.


A referida conclusão parte da observação dos cidadãos norte-americanos e suas incontáveis organizações sem fins lucrativos. Por meio de associações voluntárias, aqueles perceberam ser mais eficientes ao realizar reivindicações sociais, desde os think-tanks - institutos que disseminam ideias em setores estratégicos da sociedade a fim de influenciar políticas públicas - até a Atlanta Audubon Society, voltada para a conservação dos pássaros da Georgia, estado onde morei.



Durante minha estada, duas ocasiões mostraram o impacto da sociedade civil norte-americana: o National Homeschool Debate Tournament e a International Students for Liberty Conference. Na primeira, fui juiz de debates entre duplas de homeschoolers em um torneio organizado por pais de todo os Estados Unidos, que abdicam de grande parte do seu tempo para propor uma educação adequada e condizente aos seus valores para os seus filhos. Nesse dia, pude testemunhar adolescentes com surpreendente raciocínio crítico, oratória e retórica, a despeito de terem uma educação alternativa.


Na segunda ocasião, passei um final de semana em Washington, D.C e testemunhei a reunião de dezenas de organizações estudantis em uma conferência com palestras, debates e encontros sociais a fim de promover os valores liberais entre estudantes norte-americanos e estrangeiros. Trata-se de somente um exemplo das centenas de eventos educacionais que ocorrem no país, a fim de formar uma nova geração de lideranças.


O ponto em comum entre as duas ocasiões? Foram realizados sem ajuda governamental e partiram da associação voluntária de indivíduos - conscientes da importância de uma sociedade civil que pavimenta seu próprio futuro. Essa percepção é fruto da tradição histórica de independência dos norte-americanos em face do Estado e da crença de que o sucesso advém do esforço do indivíduo e dos seus pares.


Ademais, há subsequente senso de responsabilidade voluntária, ao passo que contribuir para o sucesso dos outros é ético e uma atitude de autointeresse, pois também nos beneficia. Destarte, os pais dos homeschoolers organizam eventos para os seus filhos e para os filhos de muitos outros, pois todos serão beneficiados. Já os membros das organizações estudantis liberais trabalham arduamente para disseminar sua filosofia, ao invés de manter o conhecimento somente para si.


Diante dessas experiências, infere-se que a sociedade civil brasileira deve imediatamente se organizar para combater os grupos de pressão que advogam apenas seus interesses escusos em nome de um bem-estar geral. É preciso um grito de liberdade face às amarras estatais, que impõem uma carga tributária abusiva que tira todo nosso senso de responsabilidade, como se o Estado fosse a força motriz das nossas vidas.


No movimento liberal, especificamente, é necessário criar um ecossistema de think tanks que dissemine as ideias da liberdade no Brasil e paute as políticas públicas no Congresso Nacional, de modo que, tanto a opinião pública, quanto os nossos legisladores sejam mais propensos ao liberalismo econômico e político. Para que isso aconteça, os liberais devem sair das suas zonas de conforto e constituir grupos profissionalizados que façam frente aos grupos de pressão tão familiares em Brasília.


Somente dessa forma podemos tornar real nosso sonho de liberdade e prosperidade. Devemos extrapolar nossa torre de marfim - imbuída de soberba e frieza - e iniciar um diálogo construtivo com o resto da sociedade. A vida real é mais do que grupos de WhatsApp. Caso contrário, meus amigos, seremos bem parecidos com a esquerda universitária e suas bolhas irreais nas universidades federais.


Pedro José Moana Mutzig – Associado Trainee do Instituto Líderes do Amanhã